História do perfume no Brasil

Um longo caminho foi percorrido até o Brasil assumir o primeiro lugar do ranking de consumo mundial de perfumes, principalmente com as marcas nacionais.

No Brasil, de clima tropical, gostos e costumes variados, o perfume ganhará novas preferências, diferentes das que os europeus trouxeram, com que estavam acostumados.

Os perfumes chegam no Brasil através da coroa portuguesa, durante o reinado de Dom João VI, no século XIX. O hábito de se perfumar era europeu e não dos índios, mas afeitos aos banhos diários, e nem dos negros que assimilaram, em parte, a cultura dos banhos indígenas.

Foi apenas através da relação diária entre esses grupos étnicos que se construiu a cultura do banho e do uso do perfume, onde o uso do perfume não substitui o banho, mas o complementa.

Apesar do “abrasileiramento” do uso do perfume, ele continua a manter aspectos da cultura europeia, principalmente nos aspectos de estabelecer uma hierarquia e provocar a distinção.

Gilberto Freyre em seu livro Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado e desenvolvimento do urbano aponta isso (Global, 2004, página 408):

“Nos perfumes é que se prolongou até quase nossos dias a hierarquia característica da sociedade patriarcal brasileira não só quanto à tipo de mulher – certos perfumes só se compreendendo em “cômicas” ou atrizes, nunca em senhoras honestas, outros só em mulatas, nunca em brancas finas – como quanto a classe e, menos rigidamente, quando a sexo.”

Os primeiros perfumes que aqui chegaram eram luxos destinados à nobreza e assim permaneceram até o desenvolvimento da indústria nacional. Até meados do século XX a maior parte da população teve que se contentar com a utilização de sabonetes cheirosos e outros produtos fragrantes para se perfumar. Definitivamente não era toda a população que tinha acesso e se podia valer do uso de perfumes.

À medida que o Brasil se industrializa, a perfumaria brasileira nasce e floresce. Ao final do século XX o Brasil produz perfumes com padrão de qualidade compatível com a produção internacional e acessíveis a maior parte da população. Com a “democratização” do uso do perfume, o poder de distinção de classe que ele conferia, vai enfraquecendo. O perfume ainda exerce o poder de distinguir as pessoas, mas não mais pelo poder aquisitivo de quem o usa e sim pela identidade que ele confere a seu consumidor.

A evolução da perfumaria no Brasil

O primeiro uso de artigos fragrantes no Brasil ocorreu por meio dos limões de cheiro no século XIX.

Os limões de cheiro

No início do século XIX os limões de cheiros (também conhecidos como laranjas de cheiro) faziam parte de uma brincadeira de carnaval, festa que na época era chamada de entrudo. Eles eram utilizados por toda a população na brincadeira.

Os limões de cheiro nada mais eram do que esferas de cera moldadas em limões ou laranjas, cheias de água perfumada. Eram lançados sobre o folião desprevenido.

gravura mostrando um entrudo com batalha de limão de cheiro
Os limões de cheiro eram lançados sobre o folião desprevenido durante o carnaval (que na época era conhecido como entrudo)

O surgimento das primeiras empresas de perfumarias e cosméticos

As primeiras empresas de perfumaria e cosméticos no Brasil surgem entre o final do século XIX e início do século XX por meio dos imigrantes. Ao perceberem o hábito do povo brasileiro de se perfumar – com o que tinha a mão – eles criam marcas que permanecem até hoje no mercado, como a Casa Granado e a perfumaria Kanitz.

No final do século XIX surgem as boticas que posteriormente irão produzir artigos cosméticos, de perfumaria e higiene pessoal. No ano de 1858 nasce a paulista “Ao Veado D”Ouro”, fundada pelo alemão Gustav Schaumann e em 1870 surge a carioca “Imperial Drogaria e Pharmacia de Granado e Cia”, fundada pelo português José Antônio Coxito Granado. Ainda nesse século, imigrantes húngaros fundam a perfumaria Kanitz (1874). Todas três continuam existindo até hoje.

foto antiga da Imperial Drogaria e Pharmacia de Granado e Cia
Imperial Drogaria e Pharmacia de Granado e Cia foi uma das primeiras empresas brasileiras de perfumaria e cosméticos

Já no início do século XX, surgem marcas de sabonetes como a Gessy, fundada em 1913 pelo italiano José Milani. Em 1916 é lançado o Eucalol, sabonete a base de Eucalipto pelos irmãos Stern, imigrantes alemães. Em 1930, em Belém do Pará, os primos Antônio e Mario Santiago lançam o sabonete Phebo odor de Rosas.

Foram ainda nas primeiras décadas do século XX que começa a surgir nos bailes o uso do lança perfume aromatizando os foliões. Como o lança perfume era uma droga que produzia efeitos estimulantes nos usuários, foi proibido na de década de 1960. Mas durante muitos anos, o consumo de anual de lança perfume ficava entre 30 e 40 toneladas.

Nessas primeiras décadas surge um produto que também era usado as vezes como perfume: era o Leite de Rosas, produto 100% nacional desenvolvido pelo amazonense Francisco Olympio em 1929. O produto é comercializado até os dias de hoje com a mesma fórmula embora a embalagem tenha se modificado ao longo dos anos.

foto mostrando propaganda antiga do Leite de Rosas e sua atual embalagem
O Leite de Rosas está no mercado brasileiro desde 1929 com a mesma fórmula embora as embalagens tenham mudado ao longo dos anos

É na década de 1940 que a perfumaria começa a se instalar no país. Mas ainda era um luxo para poucos, pois as matérias-primas eram todas importadas. Para perfumar-se sem gastar muito, homens e mulheres utilizavam de produtos fragrantes como quinas brilhantinas cheirosas para os cabelos. O segmento de mercado começa a se tornar importante com a chegada de marcas internacionais como a Johnson & Johnson, a francesa Coty e a espanhola Myurgia. A vida social intensa e elegante das grandes cidades estimulava o consumo de perfumes.

O surgimento de lojas do tipo magazines – que comercializavam diversos produtos dentre os quais perfumes e artigos fragrantes também foi muito importante para o desenvolvimento do mercado de perfumaria. Nessa época surgem ícones como Lojas Americanas, Lojas Brasileiras, etc.

As fragrâncias baseadas na lavanda são o grande destaque da década. Em 1941 é lançado o óleo de Lavanda Bourbon da paulista Perfumaria Bourbon: ele era utilizado por homens e mulheres para perfumar e dar brilho aos cabelos. Em 1943 a Phebo lança a deo colônia Seiva de Alfazema (alfazema é um outro que nome comumente dado à lavanda) que é comercializada até hoje. Ainda dessa época outro grande destaque foi o perfume de rosas Cashemere Bouquet, lançado pela Colgate. Um pouco antes do término da Segunda Guerra Mundial a Unilever traz para o Brasil a perfumaria Atkinson, conhecida por sua English Lavander.

imagem de propaganda antiga da Cashemere Bouquet
Cashemere Bouquet foi uma marca de perfumaria que teve grande destaque no Brasil na década de 1940

O fim da década de 40 é caracterizado pelo maior acesso aos perfumes, o que torna o seu consumo um hábito presente no dia-a-dia de cada vez mais brasileiros.

Já a década de 1950 é caracteriza por um sentimento mundial de reconstrução, de progredir e esquecer as tristezas da guerra. Os Estados Unidos são a potência hegemônica e o American Way of Life disseminasse pelo mundo. O mercado da beleza está no auge e as estrelas americanas de Hollywood são as referências para as mulheres.

A década de 1960 tem grande importância para a perfumaria nacional pois nela já estão instaladas no país as principais fornecedoras mundiais de fragrâncias como a International Fragrances and Flavors (IFF), Fimenich, Givaudan, Haarmann & Reimer além de fábricas de vidros de perfumes, como a Wheaton, e indústrias de embalagens plásticas.

É nessa década que surge a venda direta de cosméticos e perfumes pela Avon americana, que chega ao Brasil em 1959. Os frascos dos produtos – em formatos de animais, bonecas, etc. -fizeram tamanho sucesso que muitas consumidoras compravam os produtos apenas para coleciona-los. Novas embalagens para os mesmos produtos eram continuamente lançadas para estimular a demanda.

foto mostrando embalagens da avon
Os frascos da Avon fizeram tanto sucesso que muitas consumidoras comprovam os produtos apenas para colecioná-los

A venda direta da Avon transformou a vida das mulheres de duas formas:

  • Aquelas que procuravam um trabalho ou renda extra encontravam na venda direta de produtos da Avon essa possibilidade e;
  • As mulheres que antes não tinham acesso aos cosméticos, como aquelas que moravam distantes dos grandes centros urbanos, passaram poder a adquiri-los já que as consultoras e suas revistas chegavam a qualquer lugar.
propaganda antiga da Avon
A entrada da Avon no Mercado Brasileiro transformou a vida milhares de mulheres que puderam ter uma fonte de renda

A década de 1960 tem dois marcos importantes:

  • O lançamento do primeiro perfume de luxo 100% nacional, a lavanda Rastro, em 1965, cujo frasco podia ser reutilizado, bastando comprar mais fragrância e;
  • O surgimento da Natura em 1969, fundada por Luiz Seabra.

Nas décadas de 1970 e 1980 o país oscila entre períodos de crise e outros de prosperidade. Nem por isso o setor de perfume para de crescer:

  • Nos anos 19701 Giovana Kupfer lança a fragrância Giovanna Baby destinada ao público infantil;
  • Miguel Krigsner funda sua farmácia de manipulação em Curitiba com o nome de O Boticário, origem da conhecida marca;
  • Também dessa época surgem Água de Cheiro, L’Acqua di Fiori, Pierre Alexander, Chlorophylla, Cabeça Feita e Chanson.
fachada da farmácia de manipulação O Boticário em Curitiba em 1977
O Boticário foi fundado em 1977 em Curitiba. No início, era apenas uma farmácia de manipulação

A Chanson foi a primeira investida de Sílvio Santos no ramo da perfumaria, em 1976, com a intenção de se lançar no ramo de venda direta de cosméticos e perfumaria. No entanto, a marca não conseguiu brigar com a Avon. Em 1978 a Chanson encerra suas atividades e deixa um estoque de 70.000 frascos no formato de ânfora na fábrica de vidros Wheaton. Esses frascos foram oferecidos a Miguel Krigsner, fundador da farmácia de manipulação O Boticário, e com eles o empresário entra no segmento de perfumaria. Até hoje frascos com o formato de ânforas são utilizados como embalagens de diversos produtos do O Boticário sendo que o primeiro deles foi o Acqua Fresca, de 1979.

frasco em forma de ânfora de perfume do O Boticário
Os frascos em formato de ânfora de muitos produtos do O Boticário foram “herdados” da primeira investida de Sílvio Santos no ramo da perfumaria com a Chanson

A abertura do nosso mercado, ocorrida na década de 1990 permitiu que as indústrias nacionais de perfumes competissem em igualdades com as estrangeiras. A importação de insumos e embalagens permitiu uma melhoria na qualidade e no design dos perfumes nacionais.

O lançamento de perfumes se intensifica e sua comercialização em nosso país aproxima-se do mundo da moda e do entretenimento. Celebridades e marcas de roupas buscam individualizar o conceito de marca através de uma fragrância especial e única. Artistas que licenciam suas imagens cada vez mais estão presentes nesse mercado.

Na virada do milênio o Brasil destaca-se no mercado mundial de perfumes:

  • O mercado de perfumaria no Brasil torna-se o maior do mundo;
  • A Natura compra a Avon;
  • Surgem novas marcas como a Jequiti, em 2006, de Sílvio Santos, que retorna ao segmento.
tabela mostrando números da nova empresa resultante da compra da Avon pela Natura
Mostrando a força do setor de perfumaria e cosméticos brasileiros, a Natura comprou a Avon e a empresa resultante tem números expressivos

Diferença da perfumaria brasileira para a europeia

Na Europa, em parte devido ao clima mais frio, em parte devido a cultura de banhos menos frequentes, a característica do perfume é ser mais concentrado – o eau de parfum.

Além da concentração da fragrância, a qualidade da matéria prima é fundamental para garantir a intensidade do perfume

Já no Brasil, o clima mais quente somado ao hábito de banhos mais frequentes, favoreceu o uso de perfumes mais leves, menos concentrados, como as águas de colónia e as deo colônias. Não é à toa que as fragrâncias frescas como as lavandas foram marcantes na história da perfumaria nacional.

Outro fator que favoreceu a menor concentração nos perfumes nacionais foi a carga tributária: perfumes do tipo eau de parfum pagam mais impostos do que águas de colônia.

  • Fragrâncias com até 10% de concentração podem ser consideradas artigos de higiene pessoal e serem tributadas com 7% de IPI se forem rotuladas como “deo-colonia”.
  • Acima de 10% de concentração estamos falando de perfumes e a alíquota do IPOI é de 42%

Para atingir um maior número de consumidores foi natural que muitas perfumarias passassem a utilizar concentrações menores de fragrância, pagando menos imposto e com isso tendo um preço final ao consumidor menor.

imagem mostrando a carga tributária de alguns produtos no Brasil
Os cerca de 78,99% de tributos que um perfume importado embute no preço no Brasil levaram ao desenvolvimento da produção local e ao maior consumo de águas de colônia, que pagam menos imposto

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